10.639/03 : Caminhos para a construção da autoestima e protagonismo de crianças negras na escola

Por Brenda Gomes

Com a aprovação da Lei Federal nº 10.639/03, em 2003, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afrobrasileira nas escolas de Ensino Fundamental e Médio, algumas questões foram levantadas dentro de escolas públicas e particulares a cerca do ensino de crianças negras e periféricas nas séries iniciais.

A dificuldade no aprendizado, a autoestima baixa e outros fatores, são apontados por diversos professores, principalmente os de  alunos das séries iniciais das escolas públicas. Para a pedagoga e especialista em alfabetização Alaide Santana, as crianças negras e periféricas possuem uma dificuldade maior no aprendizado escolar, “porque a nossa matriz curricular não corresponde às expectativas das periferias e muito menos da negritude”.

A educadora ainda afirma que o problema como o da autoestima acontece por conta da “invisibilização” nos processos educacionais, onde a criança não se reconhece como protagonista da própria história. Uma problema, que de acordo com ela, pode ser solucionado se houver o “sistematização e o acompanhamento” da aplicação da 10.639/03 nas escolas.

Em entrevista para o A TARDE Educação Alaide contou sobre as experiências desde a regularização da lei nas escolas, as ferramentas disponíveis, impactos das abordagens em sala de aula e como as escolas podem driblar algumas dessas problemáticas. Confira entrevista completa.

A TARDE EDUCAÇÃOCrianças negras e periféricas tem maior dificuldade no aprendizado? Quais os fatores que podem influenciar esses fato, ou interferem para que a sociedade faça essa leitura?
ALAIDE SANTANA – As crianças negras e periféricas possuem uma dificuldade maior no aprendizado escolar, porque a nossa matriz curricular não corresponde às expectativas das periferias e muito menos da negritude. A nossa estrutura curricular contempla pouco dos saberes construídos fora dos muros escolares, a nossa proposta é eurocêntrica, o que interfere na construção de uma aprendizagem significativa, uma vez que nas escolas públicas o contingente maior é de afrodescendentes e nordestinos e estes saberes não adentram aos muros escolares.

ATE: Existe um problema de autoestima nas crianças negras? Como o educador pode driblar isso na educação básica?
AS: O problema da autoestima existe por conta da invisibilização existente no processo educacional. A criança não se percebe no espaço predominantemente constituído de imagens com pessoas brancas, de história de povos brancos. A principal estratégia de superação do educador é tornar visível a criança, trabalhar com autoimagem e imagens semelhantes, para que a criança possa se reconhecer participante deste ambiente.

ATE: A escola pública tem atendido às necessidades apontadas pela lei 10.649/03? O que já está sendo e o que ainda é necessário ser feito?
AS: A escola pública enquanto instituição tem atendido à lei: existe material gráfico, estímulo à implantação através de premiação, cursos de capacitação são promovidos constantemente. O que falta é a sistematização e o acompanhamento. Embora a instituição estimule, ela não acompanha as ações, não verifica os resultados obtidos e as publicações de resultados não são amplamente divulgados.

ATE: A representatividade de literaturas infantis negras facilita o desenvolvimento dos alunos? Os professores tem se interessado em buscar esses exemplares? É suficiente?
AS: Se reconhecer no protagonista da história cria empatia imediata e favorece o entendimento, porém poucos são os profissionais que tornam a literatura infantil negra uma constante de sala de aula, e aqueles que fazem esta opção esbarram na limitação das publicações.

ATE: Em que instituições públicas podem ajudar para a construção da identidade das crianças negras?
AS: As instituições públicas precisam com urgência rever suas matrizes curriculares, priorizando os saberes das comunidades afrobrasileiras, evidenciando os saberes das comunidades quilombolas e dos povos tradicionais.

alaide

* ALAIDE SANTANA – é pedagoga formada pela Universidade Estadual da Bahia, especialista em Alfabetização de Ensino Fundamental e Ensino de Jovens e Adultos. É professora, gestora e coordenadora pedagógica da rede municipal de ensino da cidade de Salvador. Membro do Coletivo de Coordenadores de Salvador, articuladora do Centro de Pastoral Afro Pe. Heitor Frisotti – CENPAH, produtora do Sarau da Laje, mobilizadora de ações sociais voltadas para a população negra, em especial a juventude negra da periferia do Salvador.

2 comentários

  1. Parabéns querida pelo seu trabalho. Conheço Salvador. Estou indo para Portugal levar um pouco de nossas questões. Gostaria de conhecer mais de perto o seu trabalho. Permite-me?

    Dra. Cristina moraes

  2. Olá, Cristina!
    Você quer passar seu contato para que possamos passar o contato da professora Alaide?!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>