ALUSÕES E REFERÊNCIAS EM MÚSICAS: QUESTÕES CULTURAIS PROMOVENDO PROBLEMAS DE TRADUZIBILIDADE

Paulo Henrique Santos Nunes

Resumo: Este artigo consiste no estudo dos problemas culturais encontrados ao se traduzir determinado texto, tendo em vista que cada região possui uma cultura singular e própria, criando assim uma barreira para os tradutores. Assim, esta pesquisa consiste em uma análise teórica e uma analise prática: a analise teórica versará sobre diversos textos os quais esclarecerão conceitos de (in)traduzibilidade, enquanto a análise prática apresentará alguns trechos de músicas aos quais mediante tradução, passarão por transformações culturais. O objetivo central deste texto é fazer uma abordagem critica sobre o assunto em foco, e uma análise entre o texto original e sua tradução. Como aporte teórico, utilizou-se Branco (2009), Souza(1998), Benedetti(2006), Arrojo(1992), Brandão (online), Milton(1998), Pagano (2000), Barbosa (1990) e Eco (2007).

Palavras-Chave: Problemas Culturais; (In) Traduzibilidade; Músicas.

Abstract: This article is the study of the cultural problems encountered to translate determined text, in view of that each region has a singular and own culture, thereby creating a barrier to the translators. So, this research consists of a theoretical analysis and practical analysis: theoretical analysis will focus on various texts which clarify the concepts of (in) translatability, while the practical analysis will present some songs passages to which upon translation, will undergo cultural transformations. The main objective of this text is to do a critical approach about the subject in focus, and an analysis between the original text and its translation. As a theoretical framework, was used Branco (2009), Souza (1998), Benedetti (2006), Arrojo (1992), Brandão (online), Milton (1998), Pagano (2000), Barbosa (1990) and Eco (2007).

Keywords: Cultural Problems; (In) Translatability; Songs.

INTRODUÇÃO

O processo da tradução é uma atividade muito importante, que inevitavelmente necessitará de uma atenção maior do que ao se escrever um texto autoral, pois está envolvendo a língua do texto original e a língua para qual será traduzida, assim esse processo envolve duas culturas distintas. Deste modo, nas traduções existem ligações entre o que foi escrito na língua de partida (língua-fonte), com a língua de chegada (língua-alvo). Nessa perspectiva surgem algumas problemáticas a serem abordadas, como o que acontece quando se traduz um texto, já que ele passará entre culturas distintas, também deve ser lembrado que alguns textos perdem os sentidos ao serem traduzidos e quais fatores culturais interferem ao se fazer uma tradução São esses um dos objetivos do texto, mostrar esses fatos e esclarecer duvidas relacionadas a problemas de (in)traduzibilidade.

1. TEORIA SOBRE TRADUÇÃO
A tradução foi utilizada desde o inicio dos tempos, na Idade Media, por exemplo, ela era um meio pelo qual os mais sábios utilizavam para passar os conhecimentos existentes em outras línguas, com atividades voltadas para a leitura. Assim Branco traz:
A tradução, em um sentido mais amplo, pode ser definida como uma operação de transmissão de mensagem de um sistema linguístico para outro. Tal atividade foi utilizada como ferramenta para o ensino de Latim durante a Idade Média, direcionada a atividades de leitura. (BRANCO, 2009, p.186)

Branco mostra o quão importante é o uso da tradução em atividades escolares, e com isso ela traz:
[…] a tradução como uma atividade comunicativa, que oferece oportunidade a vários usos distintos, como ensinar a traduzir, aprimorar o conhecimento da língua materna e da língua estrangeira, nesse caso, do inglês, através da Análise Contrastiva, e aprimorar habilidades de leitura. (BRANCO, 2009, p.186)

Fica claro que, a tradução tem como função facilitar o ensino de outras línguas, pois seria impossível ensinar algo que não se sabe o que significa. Deste modo Malmkjaer traz: “A tradução continua sendo um componente significativo no ensino de línguas em vários países. Por esta razão devemos utilizá-la da melhor maneira possível”. (1998, p.1)
Quando não existe a competência necessária em alguma Língua Estrangeira (LE), é possível perceber a dificuldade existente ao se comunicar, pois como não existe um controle da segunda língua, este aluno é influenciado pela língua que ele domina,deste modo a autora mostra:
No início do aprendizado de língua estrangeira, é comum que os alunos recorram à língua materna e haja a influência da mesma, sendo tal influência considerada uma interferência negativa por professores em geral, no contexto de língua estrangeira. Entretanto, a influência da língua materna no aprendizado de LE pode ser aproveitada para apresentarmos particularidades das línguas materna e estrangeira e, aos poucos, fazermos com que o aluno perceba que não é possível haver simetria total entre as línguas. Neste caso, busca-se converter a interferência, considerada a princípio negativa, em positiva. (BRANCO, 2009, p.188-189)

Não diferente dos demais pensamentos, existem diversos tipos de teorias sobre tradução, e cada um é aceito por grupos específicos, até mesmo pelo simples fato de que a palavra “tradução” pode ser usada para diferentes circunstâncias.
Entre os diversos tipos de teorias de tradução que existem, surgem dois posicionamentos distintos: a tradução “literal” e a tradução “livre”. A tradução literal é aquela que busca chegar o mais próximo do texto, preocupando-se apenas em dar significado as palavras sem, no entanto fazer as adequações à língua-alvo muitas vezes necessárias, já a tradução livre não busca tanto a perfeição, mas uma tradução que tenha o propósito de contar do que se trata, sem conter riqueza de detalhes.
Dessa forma, para mostrar as diferenças entre tradução livre e literal com clareza, Souza traz:

Não se pode negar, portanto, que haja, sob essa perspectiva, dois tipos válidos de tradução: (a) tradução literal, centrada mais na forma e (b) tradução livre, centrada mais no sentido (nas idéias ou conceitos). O tradutor pode focalizar sua atenção em uma ou outra dessas duas modalidades de tradução, sem, contudo, supervalorizar uma alternativa em detrimento da outra. (SOUZA, 1998, p.52)

Pode-se notar que esse fato envolvendo os dois tipos de tradução ocorre muitas vezes em títulos de filmes que os produtores optam pela tradução livre, pois colocam detalhes que sabem que irá chamar a atenção do público, sendo que os títulos em idioma original fazem referência à trocadilhos que possuem vários significados. Assim trago alguns exemplos de filmes conhecidos tendo seu título original, o título no Brasil (tradução livre) e a tradução literal, para deste modo facilitar a compreensão:

Título Original: 50 first dates
Título no Brasil: Como se fosse a primeira vez
Tradução Literal: 50 primeiros encontros
Título Original: Ocean’s Eleven
Título no Brasil: Onze homens e um segredo
Tradução Literal: Os onze do Ocean* nome do personagem

Título Original: Meet the parents
Título no Brasil: Entrando numa fria
Tradução Literal: Conheça os pais

Título Original: Scary Movie
Título no Brasil: Todo mundo em pânico
Tradução Literal: Filme assustador

Disponível em: http://blog.influx.com.br/2012/11/08/nomes-de-filmes-em-portugues-traducao-literal-x-traducao-livre/

Não existe fórmula alguma para se traduzir um texto de forma simples, já que essa atividade é tão complicada quanto escrever um bom texto. Teoricamente, o processo para se escrever um bom texto tem como base, primeiramente o conhecimento e domínio das línguas envolvidas, e saber produzir significados com base naquilo que foi lido (que é realmente o que significa “Ler”). Deste modo mostra Pagano:
[…] diversos conhecimentos e habilidades participam do processo tradutório, que envolve leitura, reflexão, pesquisa e, ainda redação, uma habilidade essencial para uma boa performance como tradutor. […] ao longo do processo de leitura, interpretação e recriação do texto, surgem dúvidas e perguntas que devemos ir respondendo, baseados em nosso conhecimento prévio, linguístico e cultural, e em informações que devemos buscar fora do texto, através de pesquisas em textos paralelos e outros. (PAGANO, 2000, p. 19)

Para produzir significados é de suma importância que haja muita leitura, o que implica em adquirir conhecimento crítico, e aptidão para produzir algo a partir do primeiro texto. Assim pode-se partir para a “Escrita”, que é quando coloca-se em pratica o que foi lido, produzindo. Assim ARROJO traz:
[…] escrever e traduzir, como sugere Octavio Paz, são operações “gêmeas”. Além de refletir a leitura que o tradutor elaborou a partir do “original”, todo texto traduzido será, para um publico que não tem acesso a esse “original”, texto de partida para a construção de outras leituras. Daí a grande responsabilidade do tradutor perante o texto (e o autor) que traduz e perante o publico para quem traduz. (ARROJO, 1992, p. 77-78)

Dentre tanto que se fala sobre tradução, algo que chama a atenção é quando dizem que ela é uma arte reservada a quem tem um “dom especial”. Geralmente esta crença é posta em prática quando alguém lê uma adaptação muito boa ou muito ruim, deste modo gerando a ideia que para ser um tradutor a pessoa deve nascer com este “dom”, entretanto o mais importante é possuir um vasto conhecimento cultural e linguístico.
Outra concepção partilhada por muitos é a de que para ser tradutor é preciso apenas um conhecimento da língua alvo e um dicionário de qualidade, contudo este pensamento contribui apenas para a desvalorização do profissional desta área. Além do que já foi citado anteriormente, para um bom desempenho da profissão é necessária muita experiência, que pode ser desenvolvida e/ou aperfeiçoada ao longo da formação profissional. Segundo Adriana Pagano:
Teóricos e pesquisadores referem-se ao que se chama de ‘competência tradutória’, que pode ser definida como todos aqueles conhecimentos, habilidades e estratégias que o tradutor bem-sucedido possui e que conduzem a um exercício adequado da tarefa tradutória. […] A formação requer o desenvolvimento de habilidades que transcendem o conhecimento meramente linguístico.(PAGANO,2000, p.12-13)

Ser bilíngue ou ter morado em um país onde a língua nativa é aquela a que se pretende traduzir ajuda bastante, todavia não são os únicos pré-requisitos para ser um bom profissional da tradução, o essencial é desenvolver a chamada “competência tradutória”, como citada acima.
Mesmo que uma pessoa tenha amplo conhecimento linguístico e cultural, é de suma importância que o mesmo possua uma formação ao qual irá fornecer os conhecimentos e habilidades para desenvolver o trabalho com eficiência. Deste modo a junção desses conhecimentos técnicos passados com a formação, com a fluência da segunda língua e o conhecimento cultural fará com que a obra não tenha problemas.
Como cada língua possui uma gramática oposta a outra, alguns fatores se tornam de suma importância para a tradução, caso contrário, alguns deslizes gramaticais podem comprometer a obra. Sendo assim Barbosa mostra:
[…]na tradução do inglês para o português em relação aos pronomes pessoais, muitas vezes dispensáveis no português devido às desinências verbais que deixam clara a pessoa do verbo. Assim, evita-se uma repetição excessiva prejudicial no texto traduzido. Na tradução do português para o inglês seria necessária a explicitação do pronome, já que sua presença é obrigatória no inglês.(BARBOSA, 1990, online)

Os estudos que retratam a tradução e todas as teorias já existentes são de suma importância para formar bons tradutores, pois ajudarão na compreensão e visão critica, servindo como ferramenta para ajudar na tradução. Para qualquer tradução, seja ela simples ou complexa, exigir-se-á tudo que já foi citado anteriormente, já que estão envolvendo duas línguas e duas culturas distintas, pois se traduzir fosse uma tarefa simples, as máquinas que são tão evoluídas já teriam ocupado o lugar dos tradutores humanos.

A TRADUÇÃO COMO PARTE INTEGRANTE DA LITERATURA INGLESA

A prática da tradução já existe desde antes do século XVII presente na literatura inglesa, todavia ela funcionava como Reported Speech (Discurso Indireto), ou seja, as obras que eram escritas em outros idiomas eram relatadas em inglês. Segundo John Milton:
[…] Geoffrey Chaucer introduziu vários estilos e temas da literatura europeia na língua inglesa. Entre eles estavam suas versões da ballade française, o romance de Boccaccio e a fábula de animais, ofabliau de Flandres. Também Chaucer traduziu The Romaunt of the rose e De consolationephilosophia de Boécio. (MILTON, 1998, p. 17-18)

Estas obras traduzidas por Chaucer são de grande importância para a literatura inglesa, pois fazem parte da base da mesma, sendo que, naquele período havia uma imensa escassez de livros, já que até então não tinham inventado as impressoras como são hoje em dia.
Com o passar do tempo a tradução foi ganhando o devido valor, pois obras de grande importância para a literatura mundial poderiam ser reescritas em língua materna transportando conhecimento para pessoas que não conseguiam ler estas obras em sua língua original. Desta forma, os tradutores foram ganhando o lugar de destaque que mereciam e seus salários aumentaram.
O profissional dessa área deve por obrigação ser um bom observador para que assim ele capture o que o autor realmente passou em determinada obra e não faça um trabalho ao qual a emoção e realidade contida naquelas escrituras que foram deixadas pelo escritor, este é um fato pelo qual muitas pessoas preferem ler o texto original a ter que ler sua versão, pois alguns tradutores não se atentam aos detalhes e fazem um trabalho mal feito.
As Unidades de Tradução (Uts) dependem dos modos pelos quais os tradutores se posicionam, escolhendo entre ser fiel em sua tradução trazendo a obra o mais próximo do que ela quer dizer na língua base, ou se optam pelo meio ao qual podem expressar algo equivalente na língua alvo, contudo do jeito ao qual ele sinta que está melhor do que se fizesse uma tradução fiel. Deste modo Alves traz:
[..] nenhuma dessas posições, bastante radicais, consegue atender plenamente ao tradutor. […] a posição de Haas prende-se à dicotomia milenar fiel versus livre e advoga que quanto mais livre a tradução maior será a UT e que quanto mais fiel a tradução menor será a UT. Poderíamos dizer que a tradução livre favorece a oração enquanto que a tradução literal defende a hegemonia da palavra. (ALVES, 2000, p. 31)

O tradutor precisa ter autonomia e competência em todas as línguas com que trabalha para obter um resultado satisfatório em suas obras. Ele precisa a cultura do país e outras obras do autor que vai traduzir, para com isso conhecer o que ele fala e no ato de seu trabalho estar preparado o que possa vir, sendo que quando uma expressão traduzida não der um bom resultado, o profissional terá que conseguir substituí-la por outra expressão que não comprometa o texto, pois se as características do autor forem excluídas o texto deixa de ser daquele autor e passa a ser do tradutor.

PROBLEMAS DE TRADUZIBILIDADE E (IN) TRADUZIBILIDADE

A tradução é uma atividade muito complexa, por esse motivo que até nos dias atuais pode-se perceber que, mesmo a tecnologia estando altamente avançada, um homem realiza uma tradução de um texto literário, por exemplo, melhor que uma máquina, já que ela consiste em uma produção de significados, e esta é uma capacidade humana. Para tal façanha e necessário levar em conta fenômenos naturais da língua em questão para depois começar com o processo de tradução.
Pode-se notar que a tradução é um processo que se subdivide em dois outros que são a transferência de uma língua para outra e a substituição de códigos, que consistem na transição de uma cultura para outra, e na modificação de uma gramática para a outra, de uma estrutura textual de uma língua para uma que seja o equivalente em outra.
[…] Da mesma maneira que o que importa no transporte da carga não e quais vagões carregam quais cargas, nem a seqüência em que os vagões estão dispostos, mas, sim que todos os volumes alcancem seu destino, o fundamental no processo de tradução e que todos os componentes significativos do original alcancem a língua-alvo, de tal forma que possam ser usados pelos receptores. (ARROJO, 1992, p.12)

Nota-se que para que haja uma boa traduzibilidade, os componentes lingüísticos da língua original devem ser passados para a outra língua de maneira clara sem perder o sentido original, e assim, quem lê possa compreender e utilizar corretamente. Na perspectiva de Ivone C. Beneditti:
[…] traduzir é servir dois senhores: um deles é o autor, o outro é o leitor. Esses dois senhores representam dois pólos. De um lado, temos a resistência do leitor, com sua pretensão à auto-suficiência, com sua recusa à mediação do estrangeiro; segundo Ricoeur, essa atitude pode levar ao etnocentrismo e à pretensão de hegemonia cultural. No outro pólo, encontra-se a resistência do próprio texto ao trabalho de tradução. Isto porque o tradutor pretende uma tradução per- feita e, apesar disso, depara-se freqüentemente com ilhas! de in- traduzibilidade. (BENEDITTI, 2006, p.34)

A visão tradicional de tradução é transportar cargas de significados de uma língua para a outra, entretanto apenas fazer essa interpretação é não interferir em seu significado original, já que a tradução não pode deixar de reproduzir a essência do texto.
Luis Alberto Brandão mostra em seu texto a ligação que tem a tradução com a cultura. Segundo ele:
[…] só há cultura se esta se traduz de alguma forma, o que significa afirmar que a traduzibilidade é inerente ao conceito de cultura; por outro lado, o processo de tradução necessariamente ativa um elemento incomensurável, uma diferença não passível de ser suprimida, o que significa levar em conta que a intraduzibilidade sempre se faz presente no diálogo, ou embate, entre culturas. (BRANDÃO, online, p. 10)

Ao se traduzir, o esperado é que a tradução seja perfeita, contudo sempre haverá problemas de (in)traduzibilidade, pois existem muitos fatores por trás de duas línguas, e com isso é impossível chegar a um resultado perfeito e assim que a “retraducao” entra em jogo, deste modo fazendo com que a tradução chegue mais próxima da perfeição.
O texto, seja ele qual for, serve como uma máquina de significados aos quais não é possível meramente fazer a transferência dos significados de uma língua para a outra, pois os significados de cada texto são estáveis e não sólidos, ou seja, cada significado sofre diversas transformações e podem ser usados para referir-se à varias coisas distintas. Segundo Arrojo:
O texto, como o signo, deixa de ser a representação “fiel” de um objeto estável que possa existir fora do labirinto infinito da linguagem e passa a ser uma maquina de significados em potencial. A imagem exemplar do texto “original” deixa de ser, portanto, a de uma sequência de vagões que contem uma carga determinável e totalmente resgatável. Ao invés de considerarmos o texto, ou o signo, como um receptáculo em que algum “conteúdo” possa ser depositado e mantido sob controle, proponho que sua imagem exemplar passe a ser a de um palimpsesto. (ARROJO, 1992, p.23)

Para muitos escritores famosos como Robert Frost, Paul Valéry, Marin Sorescu, entre outros, ao se traduzir textos poéticos e/ou literários, é uma atividade inferior, já que a tradução não captura a alma do que estava no texto original, pois ela sofre um prejuízo muito grande quando não tem seu real sentido passado para a outra, (sendo que é realmente isso que acontece) portanto acaba deixando nula qualquer possibilidade de uma tradução perfeita.
Textos não-literários e/ou não-poéticos, por sua vez não sofrem tantos preconceitos em sua tradução, já que não possuem uma “alma” por trás de seus significados e o que importa é que as cargas de significados sejam transportadas de uma língua para a outra, Arrojo mostra o que ocorre em textos literários desta forma:
Essa “transferência” não pode, portanto, ser aceita pelos defensores da intraduzibilidade do literário e do poético porque consideram que é precisamente essa intocabilidade da conjunção forma/conteúdo que constitui a peculiaridade do texto “artístico”. A literariedade é, assim, considerada como algo que alguns textos privilegiados “contem”, como uma “alma” ou “espírito”. (ARROJO, 1992, p. 29)

Para fazer traduções devem ser levados em conta fatores muito importantes, tais como: a cultura, a época e a tipologia textual. Um texto escrito no Canadá, por exemplo, seja ele em francês ou inglês, ao traduzir para outra língua, o tradutor tem que se atentar com os fatos ocorrentes, como a realidade, a cultura, pois deste modo o que para um leitor canadense é engraçado aqui pode não ser, com isso a tradução irá perder completamente o sentido.
Um texto que foi escrito há 50 anos possui uma realidade histórica completamente diferente de um texto que foi escrito em 2015, por exemplo. Com isso para traduzir um texto de 1965, exige-se um conhecimento básico de fatos importantes daquela época, pois querendo ou não, em qualquer texto ficam implícitas as realidades da época em que este fora escrito. Segundo ARROJO:
Menard não pode ser completamente fiel ao texto de Cervantes porque esse texto, conforme tentamos ilustrar através da imagem do texto/palimpsesto, não é um receptáculo de conteúdos estáveis e mantidos sob controle, que podem ser repetidos na integra. O texto de Cervantes, como qualquer outro texto, “literário” ou não, somente poderá ser abordado através de uma leitura ou interpretação. (ARROJO, 1992, p.38)

Um dos fatores pelos quais muitos textos traduzidos ficam ruins é que quando esse processo acontece, se for feito ao “pé da letra” o mesmo vai perder a emoção original deixada pelo autor. Por esse motivo alguns tradutores optam pelo reported speech, para que assim possam passar algum sentimento positivo para os leitores. Em um poema, por exemplo, ao tradutor optar por uma abordagem literal toda emoção expressa nele sumirá, sendo que as referências culturais contidas no mesmo não significarão nada na língua ao qual será traduzida.
Algo importante a ser relatado é a questão dos sinônimos, sendo que ao trabalhar com duas ou mais línguas, não pode-se esquecer que uma palavra da língua original terá palavras de sentido semelhante na língua alvo, deste modo ao trabalhar com tradução, o profissional tem que saber qual é a expressão correta para aquela frase, pois o sentido semântico pode ser o mesmo, entretanto o pragmático vai mudar a depender do contexto que será usado. Vale ressaltar que alem da relação entre sinônimos pode ocorrer um caso em que uma palavra signifique duas (ou mais) coisas opostas, fazendo assim com que ocorra uma homonímia. Segundo Umberto Eco:
[…] quando uma só palavra exprime duas coisas diversas, não falamos mais de sinonímia, mas de homonímia. Existe sinonímia quando duas palavras diversas exprimem a mesma coisa e homonímia quando a mesma palavra exprime duas coisas diversas. (ECO, 2007, p. 32)

Conforme já foi dito no presente texto, para compreender uma frase é preciso ter competência em determinada língua, já que há vários fatores que se não forem levados em consideração farão, com que não haja entendimento do texto e podem fazer até mesmo com que a obra deixe de ser uma tradução e passe a ser uma nova composição, pois perderá a essência deixada pelo autor.

REFERENCIAS CULTURAIS GERANDO PROBLEMAS DE TRADUZIBILIDADE EM LETRAS DE MÚSICAS

A discussão a seguir tem por objetivo comprovar o que já foi debatido anteriormente, contudo de forma clara mostrando erros que acontecem constantemente em traduções de músicas conhecidas (ou não) e muitas pessoas não percebem, seja por falta de conhecimento da língua inglesa, ou por falta de atenção.
Tais problemas são gerados, pois alguns tradutores buscam fazer com que, a obra traduzida tenha um sentido para quem está lendo, e isso é absolutamente errado. Como eles pensam que o leitor não entenderá o que significa realmente tal expressão (sendo que na maioria dos casos o que eles traduzem faz com que o sentido seja perdido completamente), eles buscam por fazer uma tradução literal pensando que irá ajudar o leitor, já outros optam por outra estratégia desta forma fazendo associações com marcas ou lojas que são conhecidas no Brasil. Contudo há aqueles que traduzem de forma incorreta, pois não sabem realmente o que significam as expressões, o que é possível perceber principalmente em músicas, que é o objetivo principal do presente trabalho.
Sendo assim, para começar a análise, trago um trecho de uma canção da banda U2 intitulada “Stay”:

Stay
Green light, seven, eleven
You stop in
For a pack of cigarettes
You don’t smoke
Don’t even want to
Hey! Now check you change
Dressed up like a car crash
The wheels are turning
But you’re upside down
You say when he hits you
You don’t mind
Because when he hurts you
You feel alive
Is that what it is?
Fique
Luz verde, sete, onze
Você para
Para comprar um maço de cigarros
Você não fuma
E nem quer
Ei, agora confira o seu troco
Vestida como um acidente de carro
As rodas estão girando
Mas você está de cabeça para baixo
Você diz que quando ele te bate
Você não se importa
Porque quando ele te machuca
Você se sente viva
O que é isso?

Trecho da música “Stay” da banda U2, composta por Bono Vox. Disponível em: https://www.letras.mus.br/u2/5/traducao.html
Logo no primeiro verso da música Stay, quando ele fala “Green light, seven, eleven”, ele está se referindo a uma rede de loja de conveniências que é conhecida como 7-eleven, ao qual ele se dirige para comprar os cigarros. Contudo no ato de traduzir a canção, como é de fácil percepção, o tradutor não devia conhecer de fato a cultura de origem da música e deste modo fez uma interpretação literal das palavras com isso corrompendo o sentido da obra e levando o leitor a pensar que ele estava se referindo a outra coisa.
Ao analisar letras de músicas traduzidas na internet, falhas como estas são muito comuns, entretanto não ocorrem apenas erros relacionados a expressões culturais que muitas pessoas não conhecem e deixam passar sem perceber, mas sim com expressões idiomáticas únicas de determinada região, que ao ter sua versão na língua portuguesa o mesmo problema da tradução literal acontece novamente, as pessoas não conhecem o termo e o significado real e fazem uma má interpretação. Isso pode ser visto nas canções abaixo:

Trecho da música “Irresistible” da banda Fall Out Boy feat. Demi Lovato, composta por Patrick Stump, Joe Trohman, Andy Hurley e Pete Wentz. Disponível em: https://www.letras.mus.br/fall-out-boy/irresistible/traducao.html

Nessa música pode-se perceber claramente um problema relacionado a expressões idiomáticas no verso “Too few rounds in the ring and not enough settled scores”, ao falar de settle score está se referindo a ajustes de contas ou vingança, e o tradutor (que provavelmente não conhece essa expressão) se referiu a “pontuar”, que é o significado literal da palavra. Não passando para o leitor o que o autor realmente quis passar ao compor a canção.
Outro exemplo de erro por causa de expressão idiomática é perceptível na canção “Photograph” do cantor Ed Sheeran:

Photograph

Loving can heal
Loving can mend your soul
And it’s the only thing that I know
I swear it will get easier
Remember that with every piece of ya
And it’s the only thing we take with us when we die

Fotografia

Amar pode curar
Amar pode remendar sua alma
E é a única coisa que eu sei
Eu juro que fica mais fácil
Se lembre disso em cada pedaço seu
E é a única coisa que levamos com a gente quando morremos

Trecho da música “Photograph” do cantor Ed Sheeran, composta por Ed sheeran/ Johnny McDaid. Disponível em: https://www.letras.mus.br/ed-sheeran/photograph/traducao.html

Contudo o deslize ocorrido na tradução desta música não é tão grave o quanto o das demais traduções mencionadas anteriormente, pois não compromete o sentido original. Essa expressão “mend your soul” se traduzida ao pé da letra significa “emendar sua alma”, contudo por ser uma expressão idiomática ela é usada para dizer “curar a alma”. Como pode-se perceber não comprometeu o sentido original. O motivo pelo qual ela está entre as outras é para mostrar os níveis aos quais podem chegar as traduções quando mal feitas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho teve como objetivo realizar um estudo sobre os problemas culturais aos quais fazem com que algumas traduções percam o sentido ao ser transferido da língua base para a língua alvo. Sendo assim foi feito um estudo com base no estudo de alguns pesquisadores e tradutores, que contribuíram de forma significativa para o desempenho do presente artigo, logo mais houve uma análise com alguns trechos de músicas que sofreram alterações com o processo tradutório por questões culturais contidas em suas composições, deste modo perdendo o sentido e naturalidade deixada pelo compositor.
Pôde-se observar que o tradutor precisa se preparar bastante antes de começar a atuar nessa profissão, assim sendo deve compreender a cultura da língua que trabalha, ter domínio dos fatores linguísticos, ser proficiente e ter competência para trabalhar com essa língua, desta forma conciliando essas questões para obter um produto final satisfatório, de acordo com sua proposta de tradução. Uma vez que a tradução não é um processo simples e/ou repentino, precisando de tempo e dedicação para não ocorrer controvérsias após a obra estar pronta.
Vale ressaltar que, as pessoas não devem ficar satisfeitas com qualquer tradução e encaminhar como seria o correto para o site ao qual está vendo uma obra mal traduzida, para com isso incentivar outras pessoas a fazer o mesmo e também para fazer com que os administradores dos sites possam contratar profissionais qualificados para atuar nesse departamento.
Conforme foi citado anteriormente, para a prática da tradução, de uma canção principalmente, exige-se do tradutor não apenas conhecimento linguístico, mas também cultural, para desta forma saber lidar com qualquer imprevisto que apareça por meio de expressões não conhecidas no Brasil. Expressões idiomáticas independente de qual língua perdem o sentido ao passar por uma tradução literal, pois elas são específicas de cada nação e quando em uma canção ou texto ocorre uma referência cultural dependendo do que seja se o tradutor fizer uma tradução literal, como foi citado em “Stay” quando ele se referiu a rede de lojas conhecida como “seven eleven”, e houve uma tradução ao pé da letra e o sentido deixado por Bono Vox na composição se diluiu.
Outro fator que ocorre geralmente em canções, sitcoms e os demais textos, é quando o tradutor faz associações a nomes de lojas, por exemplo, que trocam os nomes que não são conhecidos no Brasil por lojas que todos conhecem, entretanto isso é um grande erro, pois esse fato faz com que os brasileiros não conheçam a cultura dos outros, desta forma se prendendo apenas aquilo que já estão acostumados, e a tradução deve ser um meio de abrir portas para o conhecimento de culturas as quais até então o cidadão não está familiarizado.
E como as combinações lexicais são infinitas, a qualidade da tradução sempre pode ser considerada como uma obra inacabada, pois a todo o momento alguém poderá achar algo ao qual possa aprimorá-la. Sendo assim a tradução se torna parte vital da língua, levando os cidadãos sempre a mundos novos ao qual ele poderá transitar pelas culturas as quais até então não tinham muito conhecimento.

REFERÊNCIAS

ARROJO, Rosemary. Oficina de Tradução: A teoria na prática/ Rosemary Arrojo. – São Paulo: Editora Ática S.A., 1992.

BENEDETTI, Ivone C. Da (In)Traduzibilidade: A Propósito de Paul Ricoeur/ Ivone C. Benedetti. – TradTerm, 2006. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/tradterm/article/viewFile/46721/50494. Acesso em 20 de abril de 2015.

BRANCO, Sinara de Oliveira. Teorias da tradução e o ensino de línguas estrangeiras/ Sinara de Oliveira Branco, 2009. Disponível em: http://periodicos.unb.br/index.php/horizontesla/article/viewFile/2941/2545. Acesso em 20 de abril de 2015.

SOUZA, José Pinheiro. Teorias Da Tradução: Uma Visão Integrada/ José Pinheiro de Souza – Ver. De Letras – Nº. 20 – Vol. 1/2, 1998. Disponível em: http://www.revistadeletras.ufc.br/rl20Art09.pdf. Acesso em 20 de abril de 2015.

BRANDÃO, Luís Alberto. Teoria Literária e Tradução/ Luís Alberto Brandão. Disponível em: https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=4&ved=0ahUKEwj516G-xOzMAhXIfpAKHZ5UBkkQFggxMAM&url=https%3A%2F%2Fdialnet.unirioja.es%2Fdescarga%2Farticulo%2F4925717.pdf&usg=AFQjCNFW6jDh-aVPrOife-qaozf7-OiqIg&sig2=K5s5Lq_pGWAad5d102BfCw&cad=rja. Acesso em 20 de abril de 2015.

BARBOSA, Heloísa Gonçalves. Procedimentos técnicos da tradução: Uma nova proposta. Campinas: Pontes, 1990. Disponível em: http://www.tradwiki.net.br/Procedimentos_t%C3%A9cnicos_da_tradu%C3%A7%C3%A3o,_de_Heloisa_Gon%C3%A7alves_Barbosa. Acesso em 20 de maio de 2016.

MILTON, John, 1956-Tradução: teoria e prática/ John Milton. – 2 – ed. – São Paulo: Martins Fontes, 1998.

PAGANO, Adriana. Traduzir com autonomia: estratégias para o tradutor em formação/Adriana Pagano, Célia Magalhães, Fabio Alves. – São Paulo: Contexto,2000.

ECO, Umberto. 1932- E22q – Quase a mesma coisa/ Umberto Eco, tradução de Eliana Aguiar; revisão técnica de Rafaella Quental. – Rio de Janeiro: Record, 2007.

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